Bósnia turística


Bósnia turística

Depois de anos de conflitos, a Bósnia-Herzegóvina quer deixar outras marcas em quem visita as belezas do leste europeu

A Bósnia surpreende. O país está começando a se desabrochar para o turismo após décadas de comunismo e um difícil período de guerra. Aquela imagem de local abatido está ficando para trás. Entre casas destruídas, paredes com marcas de balas, prédios abandonados, é possível ver a superação de um povo.
Recordações da recente guerra viraram souvenires que qualquer turista de gosto um tanto duvidoso pode levar para casa. Em meio a diversos tipos de artesanato, é possível encontrar canetas feitas com balas de metralhadora, capacetes e fardas usadas, camisetas de líderes revolucionários, inclusive do marechal Tito, ditador comunista da antiga Iugoslávia, e até placas de sinalização com marcas de tiros.
Há mais de 15 anos, entre 1992 e 1995, notícias do país eram frequentes na mídia por causa de uma guerra civil. Nacionalistas bósnios de etnia sérvia queriam impedir que a Bósnia-Herzegóvina se separasse do que restava da antiga Iugoslávia. Nesse conflito, 250 mil pessoas foram mortas e 1,8 milhão se refugiaram.
Hoje a luta dos 3,8 milhões de habitantes é deixar outra impressão aos visitantes. Bastante receptivos, eles querem fazer jus a fama de ser o coração do sudeste da Europa. O traçado do território de 51 mil quilômetros quadrados se assemelha a esse órgão do corpo humano e os moradores são bastante amorosos para contar as tradições e as histórias do país.
A Bósnia-Herzegóvina, nome completo que eles fazem questão de dizer toda vez que só se menciona a Bósnia, fica na Península dos Bálcãs e faz divisa com a Croácia, Sérvia e Montenegro. O relevo é montanhoso. O território está no sul dos Alpes. A Herzegóvina é uma parte que fica ao sul do país, com relevo menos acidentado e clima mais ameno. É nessa parte onde está o litoral. A costa no Mar Adriático é pequena, tem apenas 25 quilômetros de extensão.
Por ser banhado pelo mar e estar próxima à costa, a Bósnia-Herzegóvina tem uma mistura de climas de montanha e mediterrâneo. Os verões são bastante quentes –a temperatura ultrapassa os 30 graus. Os invernos são um tanto rigorosos com temperaturas negativas durante mais de seis meses no ano nas regiões mais altas. No período de frio, o país é bastante procurado por quem gosta de esportes praticados na neve. Um dos orgulhos da população é dizer que Sarajevo foi sede das Olimpíadas de Inverno, em 1984.
Quem mora na Bósnia também adora enfatizar que são falados três idiomas oficiais: o bósnio, o croata e o sérvio. Língua parecida uma a outra. Pode-se dizer que as diferenças são similares ao português falado no Sul, no Sudeste e no Norte do Brasil. Mas a língua não é um obstáculo para visitar o país. O inglês é compreendido em boa parte dos lugares, principalmente nas cidades que recebem maior número de turistas.
Desde a sua origem, o território que é chamado atualmente de Bósnia Herzegóvina foi invadido por vários povos, que sempre deixaram suas heranças culturais. Os habitantes mais antigos foram os ilírios, indo-europeus cujo registros são de 1000 a.C., fim da Idade do Bronze. Depois quem colonizou esse trecho dos Bálcãs foram os romanos em 9 d.C..
Na Idade Média, entre vários ataques e comandos, foram os húngaros quem dominaram o território. No século 15, em outra invasão, os turcos otomanos tomaram a região e, após várias batalhas, a Bósnia se tornou uma província turca. Até hoje, passados mais de 500 anos, ainda é forte as tradições deixadas por esse povo. A principal delas é a religião. Foi durante esse período que grande parte dos moradores se converteram ao islamismo.
Depois da Guerra Russo Turca, entre 1877 e 1878, a Bósnia e a Herzegóvina fizeram parte do Império Austro-Húngaro, tendo sido anexadas em 1908. No século passado, depois da Segunda Guerra Mundial, houve o período sob o regime comunista. Entre 1946 e 1992, a Bósnia e a Herzegóvina fizeram parte da República Socialista da Iugoslávia. Uma das principais tradições deixadas pelos invasores foi a religião. Atualmente no país, 40% da população é muçulmana, 30% são católicos ortodoxos e 15% de católicos romanos.

Jerusalém europeia
Um bom exemplo de toda essa mistura cultural deixada pelos ancestrais é a capital Sarajevo. Nas ruas do centro, jovens muçulmanas com os cabelos totalmente cobertos por véus coloridos conversam descontraidamente com adolescentes com piercings, tatuagens e cabelos bastante chamativos.
Risadas e conversas ecoam dos cafés que ficam lotados durante todo o dia. Barulhos que se misturam aos sons de sinos das igrejas e da pontual oração divulgada por megafones várias vezes ao dia do alto dos minaretes. Mesquitas a poucos metros de sinagogas, que não estão tão distantes de igrejas católicas, tanto a romana como a ortodoxa. Diversidade religiosa que intitula a cidade como a Jerusalém da Europa.
E é essa mistura que faz Sarajevo, com cerca de 600 mil habitantes, ser fascinante. A região central fica em um vale cortado pelo rio Miljacka. Os trans, uma espécie de trem de superfície, são os veículos utilizados pela maioria da população. Eles colorem a cidade com seus anúncios um tanto chamativos.
Nessa parte do centro estão os clássicos e imponentes prédios de arquitetura Austro-Húngara. As avenidas são largas e o comércio é muito parecido como o de qualquer outra cidade do oeste da Europa.
A catedral ortodoxa é uma atração bastante interessante para quem gosta de conhecer igrejas. Construída entre 1863 e 1868, ela é um reduto da comunidade sérvia. No interior há um museu que conta a história dos ortodoxos no país. Também é possível apreciar peças religiosas trazidas da Rússia e da Grécia.
Em frente ao templo, o que chama a atenção é um enorme tabuleiro de xadrez. A qualquer hora do dia é possível assistir a uma partida entre os moradores. O mais curioso é quem está em volta também participa dando palpites nas jogadas.
Nessa região mais moderna também estão dois dos principais museus do país. Inaugurado em 1888, o Museu Nacional fica em um prédio de arquitetura romana com quatro pavilhões. Ele retrata a história do território desde o período Neolítico. Também faz parte do complexo, o Jardim Botânico, que tem espécies raras de flores e plantas dos Bálcãs.
Focado mais em recentes fatos, o Museu Histórico tem uma vasta exposição sobre a guerra da década de 90. Fotografias e notícias de jornais contam como se sucedeu esse conflito civil. Também estão dispostos artefatos de guerra e cômodos foram reconstruídos para mostrar como a população vivia nesse difícil período.
No outro lado do centro está o Bašcaršija, ou traduzindo literalmente essa palavra de origem turca, o grande bazar. Esse é o centro antigo de Sarajevo, com produtos mais tradicionais ou de maior apelo turístico. Essa região se parece a um labirinto com ruas bastantes estreitas e traçado irregular. O turista que pretende levar alguma lembrança tem que ser bom de barganha. Bons argumentos e muito choro sempre resultam em ótimos descontos. Nas vitrines, muitas joias feitas com ouro e pedras preciosas, roupas muçulmanas e também ocidentais, camisetas de times de várias partes do mundo, inclusive do Brasil, sapatos feitos a mão e vários modelos de jogos para tomar café ao estilo turco.
Aliás, café é a bebida preferida na cidade. Ele é servido sem coar em um pequeno bule de cobre. Geralmente, os moradores tomam sem açúcar. Os locais onde são servidos são bastante aconchegantes. Alguns chegam a se parecer grandes salas de estar, com diversas poltronas entre as mesas e estantes repletas de livros e revistas. Tomar bastante água também é outro costume da população. No centro antigo é possível encontrar várias fontes para se abastecer. A mais famosa delas é a Sebilj, construída em estilo mourisco em 1891 – é um cartão-postal da cidade.
Em Bašcaršija também estão concentrados restaurantes de comidas típicas da Bósnia. Dois pratos tradicionais bastante apreciados e baratos são o cevapcici e o burek. O cevapcici é um sanduíche feito com vários bastões carne moída bastante temperada e assada na brasa. O lanche é acompanhado de cebola picada e servido em um pão redondo e chato, chamado de somum. O burek é uma espécie de mini rocambole feito de massa folhada com diversos tipos de recheios, entre eles, carne de carneiro, queijo branco e espinafre.
Nessa região do centro velho também está a Gazi-Hursrev Bey, uma das mais tradicionais mesquitas de Sarajevo. Ela é aberta para visitação durante os períodos de intervalo entre as orações. Mas o curioso é assistir ao momento de meditação que também pode ser visto no pátio. Homens de um lado, mulheres do outro fazem seus agradecimentos para Alá. As mesquitas, além de um local sagrado, também servem de ponto de encontro para atualizar as notícias do dia.
Próximo a essa grande mesquita, está a antiga sinagoga dos judeus sefardis, povo que fugiu da Península Ibérica e foi para a Bósnia durante a Inquisição. Além do templo, também é possível conhecer qual foi a influência da colônia judaica para o desenvolvimento da Bósnia e quem foram os principais judeus que contribuíram para a história do país.

Símbolo de união
Outra cidade bastante procurada por quem visita a Bósnia-Herzegóvina é Mostar. Nela está um dos mais famosos cartões-postais do país, a velha ponte sobre o rio Neretva. Após anos de conflito na década de 90, a ponte de Mostar representa a restauração de uma nação. Chamada de Stari Most pelos nativos, foi construída originalmente por volta de 1566 em estilo otomano. O nome da ponte originou o da capital da Herzegóvina: Mostar, com 100 mil habitantes e localizada a 130 quilômetros de Sarajevo e a 60 quilômetros do Mar Adriático.
O antigo centro de Mostar é atração turística. Do alto dos minaretes (torres das mesquitas), é possível contemplar o visual de toda a cidade. Melhor vista, só do alto das montanhas, aos pés do cruzeiro. Tomar café às margens do rio Neretva e relaxar observando as águas de cor esmeralda também faz parte do passeio. A Mostarski Pils, é uma opção para quem gosta de provar diferentes tipos de cerveja. De sabor meio adocicado, o que chama a atenção é a garrafa, lacrada com uma tampa de porcelana.
Essa rotina de pacata cidade do interior foi bastante diferente há quase 20 anos. Em 1992, durante o período de guerra, a relação entre croatas e muçulmanos que viviam na região estava bastante fragilizada. Entre vários ataques, casas bombardeadas e muitas mortes, o que mais chocou a população foi quando o exército croata destruiu a velha ponte de Mostar. Todas as outras pontes da cidade também foram detonadas. O município ficou separado entre o lado muçulmano e o cristão.
Um comitê da Unesco trabalhou para que a Stari Most fosse reconstruída. Em 2004, a nova velha ponte passou a unir novamente as duas partes da cidade. Hoje, ela é reconhecida internacionalmente como um símbolo de reconciliação e cooperação. A ponte é a síntese do que é o país atualmente, um local onde povos de diferentes origens culturais, étnicas e religiosas podem conviver pacificamente. •

Nenhum comentário:

Postar um comentário